Inovação & PI

A sua tendência de KYC já está obsoleta: A palavra é convergência

Artigo de autoria de Elise Nascimento Maurelli, Gerente DPO Legal&Compliance na Shiel ID, analisa como a convergência entre biometria, inteligência artificial, dados e regulação está redefinindo os modelos de KYC e prevenção a fraudes no ambiente digital.

O mercado de identidade digital historicamente se orienta por “tendências” tecnológicas. No entanto, a consolidação das soluções de verificação elevou significativamente o nível de maturidade das obrigações de KYC (Know Your Customer), bem como das práticas de prevenção à fraude e à lavagem de dinheiro. Nesse novo cenário, o conceito dominante deixa de ser tendência e passa a ser convergência.

Mais do que acompanhar novas tecnologias, tornou-se essencial compreender como a convergência entre biometria, dados, inteligência antifraude e regulação impacta diretamente as tipologias de fraude associadas ao KYC. Essa mudança é relevante não apenas para operadores de plataformas digitais, mas também para fornecedores de tecnologia voltados à verificação de identidade, compliance e monitoramento transacional.

O avanço inevitável da inteligência artificial acelerou a evolução das soluções de verificação, exigindo que empresas de tecnologia operem de forma cada vez mais integrada às exigências regulatórias e às particularidades normativas de cada mercado, sem permitir que a estratégia seja guiada por tendências isoladas, mas sim por arquiteturas convergentes.

A evolução tecnológica no campo da identidade digital não é recente, ela é contínua e cumulativa. O desenvolvimento do reconhecimento facial, por exemplo, ocorreu ao longo de décadas, em ciclos sucessivos de inovação algorítmica e evolução do hardware de captura de imagens. Desde os primeiros experimentos de Automated Face Recognition (AFR) na década de 1960, passando pelo método Eigenfaces nos anos 1990, técnicas de análise de características locais nos anos 2000 e, mais recentemente, a incorporação de redes neurais profundas a partir de 2014, observa-se um avanço consistente e estruturado.

Em paralelo, também houve evolução significativa nos dispositivos de captura de imagem de câmeras analógicas de baixa resolução à smartphones modernos, sensores avançados e câmeras corporais utilizadas por forças de segurança. Essa combinação entre avanço algorítmico e melhoria dos sensores foi determinante para elevar a precisão dos sistemas e viabilizar sua aplicação em cenários reais, como autenticação biométrica, verificação de identidade e onboarding digital.

Dados recentes reforçam a velocidade dessa transformação. A proporção de organizações que utilizam inteligência artificial em pelo menos uma função de negócios aumentou de 55% em 2023 para 78% em 2024, refletindo uma aceleração significativa impulsionada principalmente pela IA generativa.

Nesse contexto, muitas soluções surgem como resposta imediata a problemas específicos e rapidamente ganham o status de “tendência”. O problema é que grande parte dessas abordagens é pontual, atuando apenas em uma etapa da jornada de validação do usuário, sem considerar o ecossistema completo da fraude.

Embora possam gerar ganhos temporários de performance ou percepção de inovação, essas soluções dificilmente sustentam resultados consistentes em ambientes reais, dinâmicos e adversariais. Isso porque a fraude não é estática, ela é adaptativa, combina múltiplas vulnerabilidades e evolui continuamente.

Adotar soluções focadas em um único vetor, como biometria, validação documental ou prova de vida de forma isolada, não elimina o risco, apenas desloca a superfície de ataque. Além disso, em um ambiente impulsionado pela inteligência artificial, pelo aumento da sofisticação das fraudes digitais e pela evolução constante das exigências regulatórias, o ciclo de vida das “tendências” é cada vez mais curto. O que ontem era diferencial competitivo, hoje se torna requisito mínimo, e amanhã pode ser insuficiente.

É nesse cenário que a convergência se consolida como novo paradigma. Diferente das tendências, ela não se apoia em uma tecnologia isolada, mas na integração coordenada de múltiplas camadas de validação e análise de risco.

No contexto de KYC, isso significa combinar biometria facial, validação documental (OCR), consultas em bases públicas e privadas, análise comportamental e monitoramento contínuo. A eficácia deixa de estar na tecnologia individual e passa a estar na orquestração entre elas.

Essa abordagem permite não apenas melhorar a precisão, mas também antecipar padrões de fraude, reduzir falsos positivos, aumentar a resiliência contra novos ataques e garantir aderência regulatória dinâmica.

A evolução da tecnologia, comprovada por décadas de pesquisa e pela aceleração recente da inteligência artificial, deixa claro que o mercado de KYC não avança mais por tendências isoladas, mas por convergência de capacidades.

Empresas que continuam operando com soluções fragmentadas correm o risco de estruturar seus processos sobre tecnologias que já nascem com prazo de validade. Por outro lado, organizações que adotam uma abordagem convergente constroem modelos mais robustos, adaptáveis e preparados para um ambiente de fraude cada vez mais sofisticado.

No fim, a pergunta não é mais: “Qual é a próxima tendência?”

É: “Seu modelo de KYC já está operando em convergência, ou já está obsoleto?”

*Diretora de Compliance da Shiel ID, com formação em Administração e Direito, atuando na interseção entre tecnologia, identidade digital e compliance.