As recentes tensões geopolíticas internacionais e os efeitos sobre energia, logística e cadeias de suprimentos vêm ampliando os desafios para projetos de infraestrutura no Brasil. Segundo dados do Banco Mundial, os custos energéticos registraram alta de 24% em 2026, enquanto materiais estratégicos para obras apresentaram novas elevações, com asfalto avançando 4% em abril de 2026, tubos de PVC subindo 5% e concreto registrando alta de 3%.
O movimento também já aparece nos indicadores do setor. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M) acumula alta de 6% em 12 meses, pressionando empreendimentos, elevando custos de financiamento e ampliando preocupações sobre a viabilidade econômico-financeira de projetos públicos e privados.
Para Roberto Leomil, sócio fundador da Leomil Consultores e especialista em perícias arbitrais, judiciais e Dispute Boards, a volatilidade internacional já produz efeitos diretos sobre o setor.
“Materiais como asfalto, tubos de PVC e concreto passaram a registrar oscilações intensas e imprevisíveis, comprometendo o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos e tornando o planejamento mais complexo. As empresas ficam mais expostas a rupturas de fornecimento, atrasos e discussões relacionadas à responsabilidade técnica”, afirma.
A leitura é semelhante à feita pelos sócios do Stocche Forbes Advogados, Ana Clara Viola, Bruno Gandolfo e a advogada, Rachel Moura. Segundo eles, apesar da matriz elétrica predominantemente renovável e da produção nacional relevante de alguns insumos, o setor continua sujeito às instabilidades externas.
“Os conflitos regionais e as tensões geopolíticas em rotas estratégicas de abastecimento vêm se traduzindo em prazos de entrega alongados, custos de frete e energia elevados e, em determinados casos, indisponibilidade de componentes no mercado”, explicam. “No plano financeiro, o aumento das taxas de juros nos mercados desenvolvidos também elevou o custo de capital para projetos de infraestrutura em mercados emergentes, incluindo o Brasil.”
Geopolítica pressiona custos e cronogramas
O cenário tem ampliado discussões sobre revisão contratual e alocação de riscos, especialmente em projetos de longa duração e estruturas financeiras desenhadas antes da intensificação das turbulências internacionais.
Na avaliação dos representantes do Stocche Forbes, cláusulas de distribuição de riscos e matrizes bem definidas ganham protagonismo diante da volatilidade.
“Cláusulas que identifiquem com clareza quem suporta riscos relacionados à variação de preços de materiais, insumos importados, frete e câmbio tornam-se fundamentais. Mecanismos de reajuste vinculados a índices setoriais e commodities específicas podem reduzir o risco de inadimplemento e atrasos”, afirmam.
Revisão contratual e alocação de riscos ganham espaço
Eles destacam ainda a importância das cláusulas de força maior em cenários marcados por conflitos armados, sanções econômicas e restrições logísticas.
“A definição objetiva dos eventos abrangidos — como conflitos armados, sanções internacionais e bloqueios ou restrições em rotas estratégicas —, além de procedimentos claros de notificação e comprovação dos impactos, passa a ser determinante para reduzir disputas durante a execução dos projetos.”
Leomil acrescenta que mecanismos alternativos de resolução de conflitos vêm ganhando espaço justamente para evitar que discussões sobre custos e cronogramas interrompam empreendimentos.
“Os Dispute Boards permitem analisar pedidos de reequilíbrio ainda durante a execução das obras, reduzindo a judicialização. Arbitragem e mediação técnica também se fortalecem porque aprofundam a análise das evidências e dos impactos técnicos associados aos eventos geopolíticos”, diz.
Os sócios do Stocche Forbes também apontam maior relevância de instrumentos voltados à preservação da continuidade dos projetos.
“Dispute boards, experts determinations, mediações e outros mecanismos de solução de impasses tendem a ganhar espaço para impedir que conflitos se transformem em atrasos e sobrecustos.”
Projetos passam a incorporar volatilidade global
Para os especialistas, os efeitos da instabilidade internacional já ultrapassam o campo operacional e passam a influenciar a própria modelagem dos empreendimentos.
Segundo os representantes do Stocche Forbes, eventos como sanções econômicas, restrições comerciais e rupturas nas cadeias globais de suprimentos deixaram de ser hipóteses remotas e passaram a integrar a estruturação dos projetos de infraestrutura. Isso inclui maior atenção à exposição cambial, mecanismos de reajuste, garantias contratuais e capacidade de absorção de volatilidade pelos modelos financeiros.
Os especialistas destacam ainda que investidores e financiadores passaram a avaliar com maior profundidade a capacidade dos contratos absorverem volatilidade macroeconômica sem comprometer a bancabilidade dos empreendimentos. Entre os pontos observados estão exposição cambial, mecanismos de reajuste, robustez das garantias e capacidade de preservar o equilíbrio econômico-financeiro dos projetos.
Leomil defende que a resposta passa pela combinação entre instrumentos técnicos e adaptação contratual.
“A atuação de peritos e assistentes técnicos tem sido importante para demonstrar os impactos econômicos e subsidiar procedimentos de reequilíbrio. Contratos mais adaptáveis, Dispute Boards permanentes e matrizes de risco robustas tendem a ganhar cada vez mais espaço”, conclui.


