Com 17 anos de trajetória no Banco BV, Marcella Urada compartilha uma visão aprofundada sobre as mudanças mais transformadoras no ambiente regulatório e de governança do setor financeiro, a estrutura de gestão de riscos em um banco de grande porte, a adaptação do jurídico à digitalização dos serviços e os desafios futuros envolvendo Open Finance, ativos virtuais, inteligência artificial e ESG.
Confira a entrevista na íntegra:
Sua trajetória de 17 anos no Banco BV, com foco em governança corporativa, direito societário e compliance, oferece uma visão ampla da evolução do setor financeiro. Quais mudanças no ambiente regulatório e de governança você considera mais transformadoras?
Ao longo desses anos, houve uma série de grandes acontecimentos, crises econômicas, políticas e até de saúde, evoluções tecnológicas e mudanças sociais profundas ao redor do mundo. Todos esses eventos, de alguma forma, ajudaram a moldar o mundo como o conhecemos hoje.
No segmento financeiro especificamente, acredito que alguns fatores foram e têm sido mais marcantes.
Do ponto de vista estrutural, o cenário regulatório pós-crise de 2008 pretendeu principalmente elevar a resiliência do sistema, mediante criação de requisitos de capital mais rígidos e melhores estruturas de controle e governança. Embora os bancos brasileiros já fossem cautelosos, com menor alavancagem em relação a seus pares nos EUA e Europa, naturalmente as regulações de Basileia III reduziram o espaço para que os bancos trabalhassem e exigiu a busca de maior eficiência e controles.
Em termos de organização do sistema financeiro brasileiro, houve um forte incentivo do Banco Central para aumento da concorrência, o que permitiu o rápido desenvolvimento de determinadas linhas de negócio, notadamente no mercado de instituições de pagamento. Ainda que haja uma tendência atual de consolidação desse mercado, houve importantes evoluções a partir dessa política.
Um terceiro pilar estrutural extremamente relevante diz respeito à tecnologia e inovação, tanto do ponto de vista de desenvolvimento de ferramentas como PIX e Open Finance, agendas regulatórias que mudaram e estão mudando a maneira como o brasileiro se relaciona com suas finanças, como a própria democratização dos smartphones, acesso à internet de banda larga, o aumento da bancarização gerado pelos bancos digitais e, mais recentemente, o uso de inteligência artificial em larga escala. A verdade é que atualmente, grande parte dos bancos já se consideram como empresas de tecnologia.
Outra importante tendência, não necessariamente conectada ao setor financeiro, mas ainda assim com impacto relevante sobre ele, diz respeito ao desenvolvimento de uma matriz ESG robusta e fortemente incentivada por demandas de uma sociedade cada vez
mais engajada nos temas de sustentabilidade. Vários bancos possuíam frentes de atuação ESG – o BV, por exemplo, possui um time sustentabilidade há mais de dez anos – e há alguns anos, o Banco Central adentrou essa agenda, exigindo das instituições a integração de riscos sociais, ambientais e climáticos em suas estruturas de gerenciamento de riscos.
Por último, em se tratando de governança em uma visão mais ampla, houve a consolidação do modelo de três linhas de defesa e a necessidade de criação ou fortalecimento de estruturas que permitissem a melhor atuação dos bancos em um cenário cada vez mais complexo, destacadamente nos temas de segurança da informação, compliance e auditoria independente. No campo da governança corporativa, o empoderamento dos conselhos de um modo geral e a criação de comitês especializados sofisticou a gestão das companhias e impulsionou diversas melhorias em todo o mercado.
Em um banco de porte considerável, como o BV estrutura sua governança jurídica para lidar com os riscos regulatórios, societários e de mercado, mantendo agilidade em novos produtos e conformidade com exigências do setor?
O BV lida com riscos de forma integrada, alinhado ao modelo de três linhas de defesa. Contudo, eu diria que a governança corporativa é que cria as bases para gerenciar riscos garantindo o olhar sobre a qualidade e agilidade de produtos e de atendimento ao cliente.
A estrutura do Conselho de Administração e de seus comitês possuem a atribuição de estabelecer a estratégia, diretrizes e supervisão tanto dos riscos como do negócio. Essas linhas gerais são executadas por estruturas dedicadas, que devem incorporar um mindset de agilidade e foco no cliente. Nesse contexto, o jurídico precisa se apresentar como um parceiro de negócio, buscando viabilizar soluções, direcionar estruturas e ter uma postura proativa na entrega de produtos e serviços que atendam as demandas dos clientes com segurança e conformidade regulatória. Além disso, o cenário de complexidade e mudanças constantes exige a antecipação às tendências, de forma que uma exigência futura se torne uma vantagem competitiva no presente.
Com o aumento da digitalização de serviços financeiros e possíveis inovações, como o jurídico e compliance do BV se adaptam para assegurar segurança jurídica, proteção de dados e mitigação de riscos operacionais e reputacionais?
Uma das medidas mais importantes é, primeiramente, o incentivo institucional mediante o letramento dos times em temas de inovação, permitindo que o BV capture ganhos nesses temas com rapidez.
Agora, falando em trabalho de dia a dia, é importante que não apenas jurídico e compliance, mas também segurança corporativa, áreas de dados, entre outras, estejam presentes no design de produtos e serviços, garantindo governança de dados, segurança, privacidade e conformidade desde a concepção de um produto ou serviço. Essa medida tem um forte potencial preventivo e de melhora da experiência do cliente, além de evitar retrabalhos.
No tema de risco operacional, uma das principais frentes é o tratamento de causas-raiz de todos as reclamações recebidas, visando ajustar processos e reduzir riscos, além de garantir maior satisfação do cliente BV. Temos, ainda, frentes de melhoria junto a parceiros, fornecedores e outros stakeholders, visando fortalecer a cadeia de relacionamentos do BV e reduzir vulnerabilidades em processos e esteiras.
Que práticas de governança e compliance você considera cruciais para manter a integridade institucional em momentos de expansão e mudanças regulatórias?
Acredito que, em primeiro lugar, deixar claras as responsabilidades na estrutura, evitando sobreposição ou lacunas. Para isso, é fundamental haver uma comunicação clara e efetiva aos colaboradores e demais públicos de relacionamento da companhia. Aliado a isso, colocar temas relevantes sob o holofote dos órgãos de governançaperiodicamente permite elevar sua maturidade e garantir que nada “escape” aos olhos dos envolvidos.
Outro ponto que gera valor em momentos como esse é buscar preservar a diversidade de perspectivas para melhores tomadas de decisão. Não obstante, definida a estratégia, é importante uma cultura de cooperação incondicional no atingimento dos objetivos estabelecidos.
Como mencionei anteriormente, a antecipação a tendências, principalmente às regulatórias, te permite capturar ganhos em momentos de mudança. Assim, revisar políticas, práticas, capacitar equipes e antecipar outros impactos de alterações legislativas ou regulatórias cria condições para que a companhia saia na frente.
Além disso, é importante garantir a reavaliação e o monitoramento contínuo dos principais riscos a que a instituição está sujeita e estabelecer uma cultura ética e de responsabilidade.
Por último, vale mencionar a existência de um plano de continuidade de negócios, que recebe inputs de praticamente todos os times e desenha estratégias de resposta para diversos cenários de crise, visando manter o banco pronto para agir rapidamente em uma situação dessa natureza.
Quais tendências regulatórias no sistema financeiro brasileiro você enxerga como mais desafiadoras, como o Banco BV está se preparando para elas?
A primeira delas, que está sendo desenvolvida há algum tempo e a muitas mãos, é o Open Finance, que deve alterar várias lógicas do sistema financeiro e permitir ao cliente flexibilidade em níveis jamais vistos. Até por essa característica de multilateralidade, houve percalços na implementação do cronograma, mas é uma agenda que tem evoluído bastante bem no BV, que está completamente inserido no ecossistema, com APIs técnicas padronizadas, funcionalidades no app da conta digital e processos alinhados à LGPD e normas do Banco Central.
Recentemente, tivemos a regulação de ativos virtuais, que estabelece regras mais rígidas e mexe consideravelmente com a segurança e transparência das operações envolvendo tais ativos. É um mercado pouco explorado pelo BV, mas sua regulação pode abrir espaço para novas iniciativas, caso seja assim definido em nosso planejamento.
O Banking as a Service é um negócio que também tem passado por profunda reformulação e exigirá adaptações importantes nos modelos atualmente praticados. Felizmente, ano passado o BV iniciou um movimento de ajuste de práticas junto ao público de BaaS, buscando principalmente reduzir riscos e robustecer sua estrutura de segurança, em linha com a intenção regulatória e, embora ainda haja bastante trabalho, a Bankly, nossa prestadora de serviços de BaaS tem evoluído consideravelmente.
Finalmente, dada a adoção de inteligência artificial de forma massificada por praticamente todas as instituições financeiras, acreditamos que o Banco Central deva editar diretrizes sobre o uso seguro dessas ferramentas no sistema financeiro nacional. O BV construiu sua política de uso seguro de IA, criou uma área especializada que centraliza as iniciativas e ferramentas de IA no conglomerado e tem adotado diversas práticas para garantir continuamente sua adequação.


