Aos 22 anos, Felipe Manara enxergou uma oportunidade pouco explorada num mercado financeiro altamente concentrado: o Centro-Oeste brasileiro. Em 2017, fundou a Stoic Capital ao lado de Alan Nogales e Artur Schütte, com a proposta de fazer Investment Banking a partir de Brasília, longe do eixo que historicamente concentra esse mercado no país.
O mercado brasileiro de fusões e aquisições ainda se concentra no eixo Rio–São Paulo, e o mesmo ocorre com as casas que assessoram essas operações. Um levantamento baseado na própria Leaders League mostra que 90% das instituições listadas nas categorias de Assessores Independentes em M&A e Mercado de Capitais: Dívida (DCM) têm sede no Sudeste. A Stoic é a única representante do Centro-Oeste. Nos últimos anos, grandes bancos também passaram a ampliar sua presença na região, em geral como extensão de estruturas sediadas em São Paulo. É uma diferença de origem e de perspectiva: o mercado está indo até o Centro-Oeste, enquanto a Stoic nasceu e decide lá.
Esse movimento acompanha uma mudança na própria economia da região. Nos últimos anos, o Centro-Oeste vem crescendo acima da média nacional, impulsionado pelo avanço da atividade econômica e pelo peso do agronegócio em sua base produtiva. O crescimento também começa a aparecer no mercado de capitais, com o avanço das emissões de dívida corporativa fora do Sudeste. O crescimento das empresas da região trouxe consigo novas demandas por capital e assessoria financeira.
Hoje, a Stoic atua em fusões e aquisições, estruturação de dívida, valuation e outras frentes de assessoria financeira estratégica. Já atendeu mais de 400 empresas, está presente em 18 estados e no exterior e soma quase R$ 3 bilhões em transações. Nesta entrevista, Felipe Manara fala sobre a decisão de construir uma casa de Investment Banking fora do eixo Rio-São Paulo, o amadurecimento do mercado no Centro-Oeste e o que a Stoic projeta para os próximos anos.
Confira a entrevista na íntegra:
Felipe, o que você acha que mais mudou de 2017 para cá, seja na forma como vocês atuam, seja na região?
A gente sempre teve, e ainda tem, um posicionamento de boutique, com um trabalho artesanal e personalizado para cada operação. Isso não mudou. Cada projeto é estruturado do zero, de acordo com as particularidades da empresa e da transação.
O que amadureceu foi a nossa forma de fazer isso. A metodologia já existia, mas hoje temos o repertório de quem passou por ela muitas vezes, testou, ajustou e viu o que funciona na prática. A percepção do mercado também mudou. Em 2017, uma das primeiras barreiras era convencer o empresário de que uma assessoria financeira séria podia nascer fora de São Paulo. Hoje, essa é uma objeção que praticamente não escutamos mais.
Como os empresários da região vêm mudando, e como vocês se adaptaram a isso?
O impulso de tentar resolver tudo internamente ainda existe. Mas os empresários têm cada vez mais clareza de que buscar ajuda profissional para estruturar a parte financeira não é sinal de fraqueza, e sim uma decisão estratégica. Isso também mudou o ponto de partida das nossas conversas. Hoje conseguimos discutir mais cedo as alternativas, os caminhos possíveis e o que faz sentido para cada empresa.
O que muda, na prática, em estruturar e negociar operações financeiras fora do eixo Rio-SP?
A técnica de M&A e de estruturação de dívida é a mesma em qualquer lugar do Brasil. A diferença está muito mais na relação com o cliente. Aqui, o ciclo de decisão costuma ser mais pessoal e passa por uma confiança construída ao longo do tempo, o que naturalmente influencia o ritmo das negociações.
Tem também uma questão de rede. Quando você não está dentro do centro de gravidade do dinheiro, encontrar as contrapartes e acessar o capital certos exige um trabalho mais ativo. Você precisa construir essas pontes.
Quais características do Centro-Oeste moldaram o jeito da Stoic operar, que talvez não existissem se vocês tivessem nascido em São Paulo?
Nascer em Brasília fez com que a gente precisasse conquistar credibilidade e desenvolver essas relações desde o início, sem a proximidade física com investidores e bancos que naturalmente teríamos em São Paulo. Com o tempo, consolidamos uma rede de instituições e parceiros e aprendemos a transitar entre diferentes fontes de capital sem depender de uma estrutura específica. Essa independência acabou se tornando parte da forma como a Stoic pensa e estrutura cada operação.
Ainda existe dependência do eixo Rio-SP para fechar negócios relevantes, mesmo fora dele?
Parte relevante do capital e algumas contrapartes específicas ainda estão concentradas no eixo Rio-SP, isso é fato. Mas eu não chamaria isso de dependência. A gente transita por esse mercado quando faz sentido para o cliente, sem precisar estar fisicamente dentro dele para operar.
Ao mesmo tempo, vemos uma dispersão maior na origem das operações. As emissões de dívida corporativa, por exemplo, vêm ganhando espaço fora do Sudeste. O capital continua muito presente no eixo tradicional, mas empresas de outras regiões estão acessando cada vez mais esse mercado.
Quais tendências você enxerga para a economia real e para a assessoria financeira nos próximos anos?
Olhando para o Brasil, eu vejo o capital se espalhando para além de São Paulo e Rio. É um movimento que já está em curso e deve se acentuar.
No Centro-Oeste, algumas mudanças são particularmente importantes. Muitas empresas construídas e consolidadas nas últimas décadas estão entrando em ciclos de sucessão. Ao mesmo tempo, a região vem diversificando sua economia, com o crescimento da indústria e de marcas locais que começam a ganhar outros mercados. Esses movimentos trazem decisões mais complexas sobre capital, crescimento, governança e estrutura societária e, com elas, uma demanda maior por assessoria financeira.
Como você descreveria, hoje, o papel da Stoic nesse movimento de descentralização do mercado financeiro brasileiro?
Eu gosto de dizer que nossa missão é democratizar o acesso ao capital para empresas e empreendedores. Nesse movimento de descentralização, a gente ajuda a conectar empresas e oportunidades que já existiam no Centro-Oeste a uma rede de capital historicamente mais concentrada no eixo Rio-São Paulo. A Stoic é parte de um movimento que já está acontecendo no mercado, e a própria chegada de grandes bancos à região reforça isso. Para a gente, o mais importante é que boas empresas consigam acessar capital e assessoria financeira de qualidade independentemente de onde estejam.
Qual é o próximo passo natural de crescimento da Stoic a partir do Centro-Oeste, e o que ainda precisa acontecer, na empresa e no mercado, para chegar lá?
O próximo passo é aprofundar nossa presença nacional a partir da estrutura que construímos aqui. A capacidade técnica já existe, e o mercado brasileiro em geral está amadurecendo. Agora, o desafio é crescer no ritmo certo, ampliando ainda mais nossa rede e preservando a proximidade com o cliente. A ambição nunca foi sair do Centro-Oeste para crescer, mas mostrar que dá para construir uma casa de alcance nacional a partir daqui.
Que conselho você daria a quem quer empreender fora dos grandes centros financeiros do país?
Talento, disciplina financeira e boa governança importam em qualquer lugar. O que muda para quem empreende fora dos grandes centros é que algumas conexões exigem mais trabalho. Não dá para esperar que o acesso a investidores, parceiros e instituições financeiras aconteça naturalmente. É preciso construir essa rede, estar presente e fazer um bom trabalho de forma consistente. Confiança leva tempo, principalmente quando você começa longe do mercado tradicional.
Fontes:
- LEADERS LEAGUE. Brasil, Melhores Assessores Independentes em M&A: Mid-upper Cap, 2026. Disponível em: https://www.leadersleague.com/pt/rankings/brasil-melhores-assessores-independentes-em-m-and-a-mid-upper-cap-2026
- LEADERS LEAGUE. Brasil, Melhores Assessores Independentes em M&A: Mid-lower Cap, 2026. Disponível em: https://www.leadersleague.com/pt/rankings/brasil-melhores-assessores-independentes-em-m-and-a-mid-lower-cap-2026
- LEADERS LEAGUE. Brasil, Melhores Assessores Independentes em DCM, 2026.
- ANBIMA, dados de emissões de dívida corporativa por região (debêntures, notas comerciais e promissórias, 2020 a 2024). Via: EXAME. Longe da Faria Lima: a ascensão silenciosa de centros financeiros no Norte e Nordeste. Disponível em: https://exame.com/invest/mercados/longe-da-faria-lima-a-ascensao-silenciosa-de-centros-financeiros-no-norte-e-nordeste/
- Contas Regionais do Brasil, 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45142-pib-cresce-em-todos-os-27-estados-do-pais-em-2023
- TENDÊNCIAS CONSULTORIA. Projeção de crescimento regional 2025. Via: GAZETA DO POVO. Centro-Oeste deve ter maior crescimento do Brasil em 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/economia/centro-oeste-regioes-crescimento-economico-brasil-2025/


