Disputas ESG

Net Zero e COP 30: Entre a Urgência Climática e os Interesses Reais

Em artigo assinado por Glaucia Savin e Sergio Luis da Costa Paiva, sócios-fundadores do Savin Paiva Advogados, a COP 30 e a meta de Net Zero são examinadas sob a ótica da urgência climática, da liderança contraditória do Brasil e das tensões que moldam o futuro do mercado global de carbono.

Belém sediará a COP 30 em novembro de 2025, e pela primeira vez uma conferência do clima acontece no coração da Amazônia. A escolha não é acidental: é um lembrete geográfico de que o futuro do planeta se decide em florestas tropicais, mercados de carbono e nas escolhas energéticas que fazemos agora.

Mas, o que significa realmente “zerar” emissões

Net Zero não é eliminar todas as emissões – isso seria impossível hoje. É equilibrar o que emitimos com o que conseguimos remover da atmosfera através de projetos certificados: reflorestamento, energia limpa, tecnologias de captura de carbono.

O instrumento é o crédito de carbono. Cada crédito representa uma tonelada de CO2 removida ou evitada. Para ter dimensão: um voo São Paulo-Nova York emite cerca de 1,5 tonelada de CO2 por passageiro. Compensar isso custaria aproximadamente R$ 240 no mercado brasileiro atual, ou 112 euros no europeu.

Parece simples na teoria. Na prática, é onde começam os problemas.

O Brasil chegou à COP 30 com uma carta na manga: uma coalizão de mercados regulados de carbono reunindo China, União Europeia e outros países-chave. A ideia é conectar diferentes sistemas nacionais, permitindo que créditos sejam negociados globalmente.

É uma jogada estratégica inteligente. Se funcionar, o Brasil se posiciona como articulador de um mercado que pode movimentar trilhões de dólares. Nossa vantagem é óbvia: temos floresta e capacidade de gerar créditos em escala.

Mas há um “porém” incômodo: enquanto propõe liderança climática global, o país ainda luta para controlar o desmatamento ilegal. Entre agosto de 2023 e julho de 2024, a Amazônia perdeu 6.288 km² – equivalente a quatro vezes a cidade de São Paulo desaparecendo por ano.

Como liderar um mercado de carbono quando queimamos o ativo que deveria gerar os créditos?

A COP 30 precisa enfrentar a questão que todas as anteriores evitaram: a distribuição justa dos custos da transição.

Países desenvolvidos construíram sua riqueza queimando carvão e petróleo por 150 anos. Agora pedem que países em desenvolvimento “pulem etapas” e adotem energias limpas mais caras. É justo? Não. É necessário? Sim.

A resposta passa por transferência de tecnologia real (não apenas venda de equipamentos), financiamento sem dívida, e reconhecimento de que países que preservaram florestas prestaram um serviço à humanidade que precisa ser remunerado.

O Brasil tem moral para cobrar isso? Sim e não. Preservamos 60% da Amazônia, mas destruímos 85% da Mata Atlântica. Nossa posição é contraditória, mas não menos legítima.

É tentador ser cínico sobre a COP 30. Afinal, já tivemos 29 conferências e as emissões globais continuam subindo. Mas cinismo é paralisante.

O Net Zero não é uma meta que alcançaremos em 2050 e então celebraremos. É um horizonte que guia decisões diárias. Cada tonelada de CO2 evitada importa. Cada fração de grau a menos no aquecimento significa milhões de pessoas protegidas de secas, enchentes e ondas de calor.

A COP 30 acontece num contexto peculiar: na Amazônia, com um país contraditório liderando, num momento em que a urgência climática bate à porta mas o multilateralismo está fragilizado. Não será perfeita. Mas pode ser relevante.

Não haverá um momento heroico de virada, um acordo mágico que resolva tudo. Haverá, se tivermos sorte e trabalho, avanços graduais construídos por pressão constante, inovação persistente e, eventualmente, vontade política alinhada com incentivos econômicos.

O Net Zero é possível. Mas não virá de graça, nem de forma justa, nem no ritmo que o planeta precisa. Virá do esforço acumulado de quem insiste em construir alternativas viáveis dentro de um sistema imperfeito.

E isso, por mais insuficiente que pareça, ainda vale a pena.