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Silvia Vilas Boas: “Quem já chegou a posições de liderança precisa ajudar outras mulheres a avançar”

CFO da Natura, Silvia Vilas Boas fala sobre os pontos de inflexão de sua carreira, a integração entre finanças e sustentabilidade e os desafios da presença feminina em posições executivas

A trajetória de Silvia Vilas Boas até a posição de CFO da Natura é marcada por uma combinação pouco comum de experiências em diferentes setores e áreas de negócio. Engenheira mecatrônica de formação, ela construiu uma carreira que passou pela indústria, varejo, consultoria e mercado financeiro antes de assumir uma das posições mais estratégicas do grupo brasileiro de cosméticos com presença global.

Hoje, como vice-presidente de Finanças da Natura, Silvia lidera não apenas a área financeira, mas também iniciativas ligadas a estratégia, transformação e relacionamento com investidores. Ao longo de sua carreira, acumulou experiências em empresas como Fiat, Grupo Pão de Açúcar e Banco Santander, o que lhe trouxe uma visão transversal sobre negócios e gestão.

Nesta entrevista, a executiva fala sobre os pontos de inflexão de sua trajetória, o papel das finanças na integração de indicadores socioambientais e como empresas podem transformar agendas de sustentabilidade em parte central do modelo de negócio. Silvia também comenta os desafios da presença feminina em áreas tradicionalmente masculinas e a criação da W-CFO Brazil, iniciativa voltada ao desenvolvimento de mulheres na carreira financeira.

Confira a entrevista na íntegra:

Você construiu uma carreira sólida até assumir a posição de CFO de um dos grupos com maior presença internacional. Quais foram os principais pontos de inflexão na sua trajetória até chegar a esse momento?

Na verdade, eu não construí minha carreira exclusivamente em finanças. Pelo contrário, tive uma trajetória bastante diversa. Sou engenheira mecatrônica de formação, comecei trabalhando na indústria, depois fui para o varejo, trabalhei em consultoria e passei por áreas e atividades muito diferentes até chegar às posições de finanças.

Isso é interessante porque, na maioria das vezes, quem ocupa a posição de CFO fez a carreira inteira na área financeira. No meu caso, não foi assim. Essa experiência diversa me deu uma visão muito mais transversal do negócio, o que hoje me ajuda bastante na posição que ocupo.

Acho que houve dois grandes pontos de inflexão na minha trajetória. O primeiro foi quando eu morava em Belo Horizonte, trabalhava na Fiat e recebi uma proposta para vir para São Paulo trabalhar no Grupo Pão de Açúcar, na área de recursos humanos. Na época eu era engenheira de produtos, então foi uma mudança muito grande: de cidade, de setor e de área.

Costumo dizer que foi um “salto mortal triplo”. Foi um mergulho no desconhecido, com bastante coragem e vontade de aprender. Essa experiência me mostrou que eu era capaz de fazer coisas muito diferentes e que aprender algo novo também pode ser muito prazeroso.

O segundo ponto de inflexão foi quando entrei no mercado financeiro. Trabalhei 12 anos no Banco Santander. Já tinha algum background financeiro por conta da consultoria, mas no banco tive a oportunidade de atuar diretamente em finanças e também em áreas como RI, inovação, tecnologia e operações. Mesmo dentro do banco, tive experiências bastante diversas.

Ao longo da minha carreira, muitas vezes eu saí da área financeira, mas ela sempre acabava me trazendo de volta. Hoje, na Natura, além de CFO, também sou responsável por RI, estratégia e transformação. Gosto dessa visão mais ampla e da possibilidade de impactar a companhia de forma transversal.

Hoje fala-se muito sobre ESG. Se antes era um diferencial competitivo, hoje já parece algo incorporado às empresas. Como a área financeira da Natura integra indicadores ambientais e sociais na gestão de performance?

Eu não diria que a agenda ESG está incorporada em todas as empresas. Em muitos casos, ela ainda é tratada como uma agenda de compliance, o que, na minha visão, é um equívoco.

Na Natura, inclusive, nem gostamos de falar em “agenda ESG”. Temos um modelo de negócio que já nasce integrado à geração de impacto positivo em capital humano, natural e social.

Muitas pessoas perguntam: em momentos de crise econômica, vocês cortam investimentos em ESG? A resposta é que, se fizermos isso, estamos cortando o próprio negócio.

Um exemplo são as comunidades da Amazônia. Há 25 anos trabalhamos com essas comunidades, desenvolvendo bioativos a partir do conhecimento tradicional, que utilizamos em produtos — especialmente na linha Ekos. Se deixássemos de trabalhar com essas comunidades, teríamos que encerrar uma linha inteira de produtos.

Esse é o caminho que acreditamos que as empresas deveriam seguir. Quando a agenda climática, de diversidade ou de impacto social é tratada como algo separado do negócio, sempre surge o dilema entre investir no negócio ou investir nessa agenda.

Na Natura, entendemos que os desafios socioambientais são também oportunidades de negócio. Por isso, eles fazem parte do modelo da companhia.

Temos inclusive uma ferramenta chamada Painel Integrado, que monetiza os impactos gerados pelo negócio. Hoje conseguimos medir que, a cada um real de receita, geramos cerca de R$ 2,70 de impacto positivo em capital humano, social e ambiental.

Esses indicadores fazem parte da gestão de performance da companhia. Por exemplo, usamos um preço interno de carbono na avaliação de projetos. Projetos que reduzem emissões acabam sendo mais competitivos. Isso cria um ciclo virtuoso, porque desde 2007 a Natura é carbono neutro.

A Natura é reconhecida por suas práticas pioneiras em sustentabilidade. Como essas iniciativas são traduzidas em metas e geração de valor?

Sempre fizemos a combinação entre indicadores financeiros e indicadores socioambientais na gestão da companhia.

Na remuneração variável, por exemplo, 70% do peso está ligado a indicadores financeiros e 30% a indicadores socioambientais. Isso mobiliza toda a organização na mesma direção.

Se sustentabilidade faz parte do modelo de negócio, ela precisa necessariamente estar refletida também na forma como avaliamos desempenho e remuneração.

Áreas como finanças e engenharia ainda são majoritariamente masculinas. Que mudanças você observou ao longo da sua carreira e o que ainda precisa avançar?

Ainda vemos uma predominância masculina nas posições executivas — CEO, CFO, líderes de operações ou logística, por exemplo. Essa realidade está mudando, mas numa velocidade ainda insuficiente.

Uma das razões que me trouxeram para a Natura foi justamente o fato de 51% das posições de liderança serem ocupadas por mulheres. Hoje, a CFO é mulher, a líder do jurídico é mulher e a responsável por operações e logística também é mulher. Isso vai na contramão do que vemos em boa parte do mercado.

Mas ainda há muito a avançar. Eu costumo dizer que precisamos atuar tanto no nível individual quanto institucional.

No plano individual, quem já chegou a posições de liderança precisa ajudar outras mulheres a avançar. Em 2020, junto com outras 30 CFOs, fundamos a W-CFO, uma associação que apoia mulheres na progressão da carreira em finanças por meio de mentoria, troca de experiências e treinamentos. Hoje a associação já tem cerca de 200 integrantes.

No plano institucional, acredito muito em metas de diversidade. As empresas deveriam refletir a diversidade da sociedade. Para isso, muitas vezes são necessárias ações afirmativas, como abrir vagas direcionadas para mulheres, pessoas com deficiência ou outros grupos sub-representados.

Outro ponto importante é a educação financeira desde cedo. Muitas mulheres não são incentivadas a desenvolver essa autonomia financeira ao longo da vida. Isso precisa mudar.

E também há questões estruturais nas empresas, como licenças parentais equilibradas ou políticas de apoio à parentalidade. Na Natura, por exemplo, temos um berçário na unidade de Cajamar que atende os funcionários. Isso traz muita tranquilidade para pais e mães que trabalham ali.

Ao longo da sua trajetória, quais conquistas você destacaria?

Tive muitas conquistas profissionais, mas talvez a maior delas seja o meu próprio desenvolvimento humano ao longo dessa jornada.

Tenho muito orgulho de estar hoje na Natura e de ser a primeira CFO mulher da companhia. Também tive a oportunidade de trazer a primeira controller mulher da empresa.

Mas, acima de tudo, tenho orgulho de ter ajudado a desenvolver pessoas e contribuir para que outras também conquistassem seus objetivos profissionais.

Que conselhos você daria para mulheres que querem seguir carreira em finanças, engenharia ou alcançar posições executivas?

O primeiro conselho é nunca deixar de ser você mesma. Muitas vezes, ao subir na carreira, algumas mulheres acabam tentando se adaptar a um padrão dominante, até se masculinizando em certos aspectos. Acho isso um erro. A autenticidade é o que mais nos diferencia.

Outro ponto importante é não entrar na lógica de que é preciso escolher entre carreira e família. Eu sou casada, tenho dois filhos, faço atividade física, estive presente na vida deles e também construí minha carreira. Esses caminhos não precisam ser excludentes.

Também acho fundamental se divertir ao longo da jornada. Tenho mais de 25 anos de carreira — não dá para viver isso como algo pesado o tempo todo. É importante criar ambientes de trabalho em que as pessoas gostem de estar.

Em termos mais pragmáticos, para chegar a posições executivas é essencial entender profundamente o negócio. Costumo dizer que sou uma pessoa de negócios, não apenas uma CFO.

Também é importante compreender a agenda socioambiental como parte do negócio, não como algo separado.

E, por fim, desenvolver uma comunicação de impacto. Em finanças lidamos com temas complexos. Ter a capacidade de traduzir essa complexidade de forma clara para diferentes públicos é uma habilidade essencial.