À frente da área jurídica da Arcos Dorados, Boris Gris detalha os principais focos na prevenção de litígios e no controle de passivos em operações de grande porte, o equilíbrio entre defesa jurídica e reputação, o uso de padronização e tecnologia para garantir compliance sem travar o crescimento e os riscos regulatórios que devem ganhar prioridade nos próximos anos.
Confira a entrevista na íntegra:
Quais são os principais focos jurídicos no controle de passivos e prevenção de litígios?
Em operações de grande escala, especialmente no setor de varejo, o jurídico precisa atuar muito mais de forma preventiva do que reativa. O jurídico só funciona bem quando a prevenção não é exclusiva do jurídico. Então o foco está em criar cultura: treinar, orientar, antecipar riscos e ajudar as áreas a tomarem decisões juridicamente sustentáveis no dia a dia. Assim o jurídico não “apaga incêndios”, mas evita que eles surjam. O maior desafio não é o volume em si, mas garantir uniformidade. Quando existem muitas unidades, o jurídico precisa padronizar contratos, políticas, treinamentos e modelos decisórios. Isso evita interpretações divergentes, reduz contencioso e traz previsibilidade. Governança jurídica é, na prática, uma ferramenta de redução de passivos.
Como equilibrar defesa jurídica e preservação da reputação da marca em casos sensíveis?
Em litígios sensíveis, a questão não é apenas “ganhar” juridicamente, mas como ganhar. A estratégia deve considerar o impacto reputacional. Por isso, trabalhamos alinhados com comunicação, operações, compliance e outras áreas. Quando um conflito pode gerar desgaste público, soluções negociadas e transparentes podem ser mais estratégicas do que uma disputa prolongada.
Quais controles jurídicos são essenciais para garantir compliance sem travar o crescimento operacional?
O segredo é padronização com tecnologia. Políticas claras, contratos uniformes e processos bem definidos permitem escalar a operação sem perder governança. A isso se soma treinamento contínuo de colaboradores e franqueados, além de sistemas que registram e auditam aprovações. Assim, conseguimos ser ágeis sem abrir mão de segurança jurídica.
Como gerenciar riscos com fornecedores, franqueados e contratos de longo prazo em um ambiente regulatório instável como o Brasil?
A melhor forma é garantir contratos robustos, com cláusulas claras de responsabilidade, qualidade e auditoria. É fundamental que esses contratos sejam revistos periodicamente, porque as regras mudam e o modelo de negócio evolui. Outra prática importante é acompanhar de perto a legislação fiscal e regulatória e ajustar as relações comerciais sempre que o cenário muda.
Com o crescimento das vendas digitais e automação, como o jurídico se prepara para os novos desafios?
A expansão digital mudou o foco jurídico. Hoje, temas como proteção de dados, responsabilidade em plataformas, meios de pagamento e segurança digital são tão importantes quanto contratos de loja física. Temos que antecipar regulações, entender tecnologia e garantir que os sistemas, fornecedores e plataformas operem com governança e segurança jurídica.
Olhando para o futuro, quais áreas de risco regulatório e contencioso serão prioritárias?
Eu destacaria cinco frentes:
responsabilidade civil,
proteção de dados e tecnologia,
questões fiscais em meio às mudanças regulatórias,
desafios trabalhistas associados a novos modelos operacionais, e
exigências ESG, que tendem a crescer e impactar contratos, fornecedores e até campanhas publicitárias.
Essas áreas vão moldar grande parte da atuação jurídica de empresas com operações de porte relevante no Brasil.


