Pessoas & Gestão

Luiza Helena Trajano: “Não espere se sentir totalmente pronta para dar o próximo passo”

Em entrevista especial da Semana das Mulheres do Decisor Brasil, a fundadora do Magazine Luiza fala sobre liderança, governança, diversidade e o desafio de manter o “calor humano” em um varejo cada vez mais digital.

A trajetória de Luiza Helena Trajano acompanha algumas das transformações mais profundas do varejo brasileiro nas últimas décadas. À frente do Magazine Luiza, empresa que saiu de uma operação familiar no interior de São Paulo para se tornar uma das maiores plataformas de varejo do país, ela ajudou a conduzir a adaptação do setor a um ambiente cada vez mais digital e competitivo.

Nesta entrevista especial da Semana das Mulheres do Decisor Brasil, a empresária fala sobre liderança feminina, governança, diversidade e os desafios de manter cultura e proximidade com o cliente em um varejo cada vez mais orientado por tecnologia e dados.

Confira a entrevista na íntegra:

O Magalu é um case global de transformação digital, mas você sempre defendeu que o “digital não existe sem o calor humano”. Como a senhora vê o desafio de manter a cultura forte e o atendimento humanizado em uma empresa que cresceu exponencialmente e se tornou uma gigante de tecnologia?

O Magalu sempre acreditou que tecnologia é meio, não é fim. A gente se transformou em uma plataforma digital, mas sem abrir mão da nossa rede física e da nossa cultura. Por isso investimos muito em liderança próxima, em comunicação transparente e em manter o propósito claro para todos. O digital amplia a capacidade, mas o calor humano continua sendo o que constrói confiança e relacionamento com o cliente.

Sendo uma das poucas mulheres a alcançar o topo do varejo nacional, quais barreiras a senhora percebe que já foram derrubadas para as executivas brasileiras e quais ainda são os “tetos de vidro” mais difíceis de quebrar hoje?

Já avançamos muito. Hoje vemos mais mulheres em posições de liderança, mais consciência sobre equidade e mais empresas olhando para diversidade com seriedade. Mas ainda existem tetos de vidro importantes, principalmente relacionados à confiança e à divisão desigual das responsabilidades familiares. Muitas mulheres ainda precisam provar muito mais a sua competência. O próximo passo é aumentar ainda mais a presença feminina em poder real de decisão, tanto no poder público como no privado.

O que é o “Grupo Mulheres do Brasil” e qual é a sua missão central? Como essa união de mais de 100 mil mulheres tem atuado para influenciar políticas públicas e transformar a sociedade civil?

O Grupo Mulheres do Brasil nasceu de uma inquietação: como transformar nossa força coletiva em impacto concreto? Hoje somos mais de 130 mil mulheres no Brasil e no exterior trabalhando em frentes como educação, combate à violência, empreendedorismo e políticas públicas. Nossa missão é construir um país mais justo, colaborando com governos, empresas e sociedade civil. Não é um movimento partidário, é um movimento de ação prática, onde cada mulher se sente protagonista da mudança.

O programa de trainee para negros do Magalu foi um marco no debate sobre diversidade corporativa no Brasil. Como convencer lideranças mais tradicionais de que a diversidade e a inclusão não são apenas pautas sociais, mas ativos estratégicos e financeiros para as companhias?

Diversidade não é custo, é inteligência de negócio. Empresas diversas inovam mais, entendem melhor o consumidor e tomam decisões mais completas. Quando lançamos iniciativas como o trainee para negros, mostramos que era possível unir impacto social e estratégia empresarial. Fiquei muito feliz de ver que quebramos um paradigma, após o Magalu centenas de empresas, no Brasil e no exterior, passaram a trabalhar o tema.

Sua trajetória atravessou diversos planos econômicos e crises no Brasil. Que conselho a senhora daria para empreendedoras e executivas sobre resiliência e tomada de decisão em momentos de alta volatilidade econômica?

Eu vivi hiperinflação, mudanças e cortes de zero de moedas, crises políticas e transformações tecnológicas profundas. A maior lição é não paralisar. Em momentos de mudanças profundas, é fundamental ter clareza de propósito, cuidar do caixa e manter proximidade com o cliente e com a equipe. A crise passa, mas as decisões que você toma nela definem o futuro da empresa. Para empreendedoras, digo sempre: não tenham medo de ajustar a rota, mas nunca percam seus valores, e sempre de olho no fluxo de caixa.

A senhora fez uma transição muito bem-sucedida da operação (CEO) para a presidência do Conselho. Para o nosso público de advogados e gestores, qual é o segredo para uma sucessão familiar que profissionaliza a empresa sem perder a “alma” do fundador?

Sucessão não é um evento, é um processo. No Magalu, fizemos essa transição com muito diálogo, planejamento e profissionalização da gestão. O segredo é separar papéis sem perder a essência. A família precisa entender que governança é um ato de amor pela empresa, porque garante continuidade. Quando você constrói uma cultura forte, a “alma” do fundador permanece viva mesmo com novas lideranças.

O Futuro do Varejo e do Brasil: Olhando para os próximos 5 ou 10 anos, quais tendências a senhora acredita que ditarão o ritmo do varejo brasileiro? E qual o papel da liderança feminina nessa nova economia?

O varejo será cada vez mais integrado entre físico e digital, com uso intensivo de inteligência artificial, dados e personalização da experiência. Mas também vejo um consumidor mais consciente, que valoriza propósito e responsabilidade social. A liderança feminina terá um papel central nessa nova economia porque traz uma visão mais colaborativa, inclusiva e orientada ao longo prazo, características essenciais para um mundo em transformação.

O que a Luiza de hoje diria para a Luiza que estava começando atrás do balcão em Franca? Que mensagem de incentivo a senhora deixa para as mulheres que estão iniciando sua jornada de liderança agora?

Eu não costumo ficar remoendo sobre decisões tomadas, pois considero cada lição tomada como um aprendizado contínuo, mas desde nova sempre acreditei que pessoas fazem a diferença e trabalhar com ética e coragem para aprender sempre. Para as mulheres que estão começando gostaria de dizer para que não esperem se sentir totalmente prontas para dar o próximo passo e que busquem apoio e ajuda, pois ninguém constrói uma trajetória relevante sozinha.