No ano em que os cursos jurídicos no Brasil completam 200 anos, a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo de São Francisco, passa por um momento simbólico de renovação institucional. A penalista Ana Elisa Bechara assumiu recentemente a diretoria da tradicional faculdade, tornando-se a segunda mulher a ocupar o cargo em quase dois séculos de história.
Professora da casa e especialista em Direito Penal, Bechara assume a gestão em um momento de reflexão sobre o futuro do ensino jurídico e sobre os desafios de ampliar diversidade e representatividade em instituições historicamente marcadas por estruturas tradicionais de poder.
Nesta entrevista especial para a Semana das Mulheres do Decisor Brasil, a diretora fala sobre liderança acadêmica, formação jurídica, diversidade e os caminhos para manter relevante uma das escolas de Direito mais influentes do país.
Confira a entrevista na íntegra:
Sobre a quebra de paradigmas: a senhora é a segunda mulher a compor a diretoria da faculdade em dois séculos de história. Como sua trajetória e visão de mundo podem alterar a governança institucional e tornar o diálogo com o corpo discente mais plural?
Tudo é um processo. O fato de eu ser a segunda diretora vinda do Direito Penal não é uma curiosidade; a primeira docente mulher da São Francisco foi a professora Esther Figueiredo Ferraz, justamente no Departamento de Direito Penal em 1947. Ela abriu portas para a professora Ivete Senise em 1998 e, agora, para mim. No Direito, metade dos inscritos na OAB já são mulheres, mas elas vão desaparecendo conforme a carreira sobe em direção ao poder. Minha gestão quer trazer essa representatividade e quebrar o paradigma de que o território do poder pertence ao masculino. Precisamos de sensibilidade para identificar as assimetrias da realidade social e transformar essa diversidade em riqueza institucional.
Sobre o legado: para além das reformas estruturais, qual é a marca pessoal que a senhora deseja consolidar para que as futuras gerações de juristas vejam os espaços de poder como algo natural e corriqueiro?
A história da São Francisco se confunde com a história da nossa independência intelectual, com a missão de formar quadros que deem respostas aos problemas sociais. Quero que meu legado seja a reflexão crítica sobre o futuro: qual o nosso papel na democracia e no Estado? Vivemos um cenário mundial complexo de rupturas e intolerância. Para além da infraestrutura e questões burocráticas, o legado imaterial que busco é preparar a faculdade para os seus próximos 200 anos. Isso passa por potencializar atividades de extensão e assistência judiciária, como o Departamento Jurídico XI de Agosto, garantindo que a faculdade continue sendo um agente transformador da realidade diante dos novos desafios da tecnologia e da globalização.
Como a senhora encara o desafio de capitanear o bicentenário da faculdade em 2027 e como os dilemas tecnológicos e sociais devem definir esse novo século da instituição?
O segredo é não buscar “capitanear” sozinha, mas pensar nisso como um projeto coletivo envolvendo o STF, o Congresso Nacional e nossa faculdade coirmã de Olinda. Sobre os desafios futuros, a questão tecnológica é chave. Não basta tolerar a Inteligência Artificial; precisamos nos apropriar dela e ser protagonistas no seu desenvolvimento ético. No entanto, o ensino do Direito precisa ser cada vez mais interdisciplinar e focado em capacidades socioemocionais. Em uma sociedade intolerante e agressiva, o profissional precisa saber dialogar e administrar a informação com criatividade. O robô pode projetar decisões baseadas no passado, mas o raciocínio jurídico criativo e humanista é algo essencialmente humano, e é essa formação que queremos potencializar.
Qual mensagem a senhora deixa para as mulheres que operam o Direito hoje e para aquelas que virão ocupar este espaço nos próximos 200 anos?
O protagonismo feminino não é um episódio ou uma exceção, é um processo conjunto e um caminho sem volta. Não existe democracia sem equidade de gênero e igualdade de oportunidades. As mulheres trazem uma visão essencial para a ideia de justiça. Na faculdade, criamos a “Galeria das Mulheres” para que as jovens alunas vejam ali o seu lugar. Vivemos ainda em uma sociedade machista, mas o sentimento de coletividade atual não permite mais retroceder. Minha mensagem é que trabalhemos em rede: ninguém está sozinha. Como fruto de um processo, estendo a mão para que as futuras juristas também ocupem esses espaços de poder com toda a sua capacidade e sensibilidade.


