Negócios & Transações

América Latina e Brasil: Volatilidade, Oportunidade e a Evolução do M&A

Este artigo é de autoria de Alexandre Pierantoni, Managing Director da Kroll Brasil.

Fazer negócios na América Latina sempre envolveu um certo nível de adrenalina. Historicamente, o principal desafio da região foi a volatilidade econômica – muitas vezes associado a questões políticas. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, muitos países enfrentavam grandes déficits fiscais, hiperinflação e economias extremamente fechadas. O Brasil, em particular, passou por uma transformação relevante no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, com processos de desregulamentação, abertura da economia, maior disciplina fiscal e controle da inflação. Esse período marcou o início de oportunidades mais consistentes para o setor bancário e de investimentos.

Desde então, a América Latina convive em meio a ciclos de incertezas e volatilidade, mas, ao mesmo tempo, passou a apresentar um forte espírito empreendedor e um número crescente de oportunidades. Atualmente, o Brasil segue demonstrando resiliência e dinamismo, apesar dos desafios estruturais. Trata-se de um país com uma taxa básica de juros elevada (atualmente em torno de 15%), e que deve permanecer nesse patamar nos próximos meses. Ainda assim, o país continua oferecendo diversas oportunidades de crescimento e consolidação em múltiplos setores.

Os investidores financeiros são bastante ativos na região, assim como o capital estrangeiro. Nos mercados de capitais, os investidores internacionais representam hoje cerca de 60% dos investimentos, enquanto a atividade de M&A segue em ritmo intenso. Em 2025 o Brasil registrou cerca de 1.400 transações de fusões e aquisições (M&A), incluindo operações de grande porte em setores como logística, mineração e infraestrutura. Concessões (rodoviárias, portuárias e de saneamento, dentre outras) destacam-se dentre as grandes operações no país. Embora o setor de tecnologia lidere as atividades de M&A e represente cerca de 15% da atividade de M&A, as oportunidades estão distribuídas por praticamente toda a economia.

Um aspecto importante do mercado atual é a diferença de dinâmica entre grandes transações e operações no mid-market e lower-mid-market. Esses segmentos apresentam ritmos distintos, e a atividade entre empresas médias e menores tem sido particularmente intensa, refletindo uma mudança estrutural relevante na economia e no mercado de capitais brasileiros. Este, o mercado de capitais, tem se mostrado bastante crítico, notando-se que não há abertura de capital de nenhuma empresa no Brasil nos últimos 3 anos – e mesmo operações de follow-on, tem sio bastante pontuais e restritas.

Historicamente, a volatilidade cambial era a principal preocupação dos investidores (nota-se que, em 2025 o Real valorizou-se em mais de 10%). Empresas multinacionais que tiveram sucesso no Brasil foram, em geral, aquelas com estratégias de longo prazo, presença contínua e participação de mercado consolidada. Em contrapartida, investidores com mandatos mais curtos e estratégias de entrada e saída frequentes muitas vezes foram impactados por movimentos abruptos de juros e câmbio. O mesmo se aplica a patrocinadores financeiros e fundos globais: investidores de longo prazo tendem a apresentar melhores resultados, enquanto estratégias de curto prazo mostram históricos mais mistos.

Ao longo da última década, no entanto, a principal fonte de incerteza mudou. Hoje, a insegurança jurídica e regulatória representa o maior desafio, especialmente em setores altamente regulados. No Brasil, há uma expressão recorrente de que “até o passado é incerto”, refletindo o fato de que interpretações tributárias e regulatórias podem mudar de forma retroativa. Com o avanço da reforma tributária, essa imprevisibilidade tende a se intensificar, tornando o futuro um pouco mais difícil de antecipar. A visão é de que algum sacrifício no curto prazo é necessário, para se ter os resultados, e benefício, no longo prazo.

Apesar desses desafios, o Brasil e a América Latina ocupam um papel relevante no atual contexto geopolítico. Para investidores estrangeiros, a região representa uma oportunidade atrativa de diversificação, especialmente considerando seu potencial de crescimento e consolidação. Embora a América Latina nem sempre esteja no centro das discussões globais, essa menor visibilidade pode, por si só, gerar oportunidades para investidores com visão de longo prazo. A América Latina, representa 6% das atividades mundiais de M&A, sendo o Brasil, responsável por cerca de 55,% desta atividade, seguido por México, com 12% e Colômbia, Argentina e Chila, com 6% cada.

A incerteza política permanece como um fator constante. Eleições em países como Brasil, Argentina, Chile e outros resultam em mudanças recorrentes de orientação política. Esses desafios são estruturais e dificilmente desaparecerão. Ainda assim, sob uma perspectiva global, a região apresenta forte demanda por investimentos em infraestrutura e amplas oportunidades de consolidação em diversos setores. O investidor global, até por questões associadas a diversificação de risco, enxerga na América Latina uma oportunidade – em 2025, nas operações de M&A, os países da Europa lideram o número de operações (presente em 36% das transações), seguidos dos Estados Unidos (33% das operações). A China tem aumentado significativamente seus investimentos na América Latina em setores de agronegócio, mineração e óleo e gás.

Um dos principais traços do atual cenário de M&A no Brasil é a força do investidor local. Cerca de 80% das transações anunciadas, considerando o número de operações e não os valores envolvidos, são realizadas entre agentes brasileiros. Grupos locais cresceram, diversificaram-se e atingiram escala suficiente para liderar processos de consolidação. Esse movimento também é observado em países como a Argentina, onde investidores domésticos têm sido os principais protagonistas das transações recentes.

Mesmo nos grandes projetos de infraestrutura, incluindo portos, aeroportos, rodovias, energia, logística e mineração, os investimentos são cada vez mais financiados por capital privado, seja nacional ou estrangeiro. A demanda por capital é clara, e os recursos estão disponíveis.

Ainda assim, fazer negócios no Brasil, e na América Latina, exige profundo conhecimento das complexidades locais. Questões tributárias e trabalhistas representam uma parcela significativamente maior das preocupações diárias quando comparadas a mercados como Estados Unidos ou Europa. Como consequência, os processos de diligência na América Latina são substancialmente mais complexos e exigentes.

Isso reforça uma lição fundamental para quem deseja investir ou operar na região: presença local e conhecimento do mercado fazem toda a diferença. Investidores que adotam uma abordagem de longo prazo e contam com assessoria local qualificada tendem a obter resultados superiores.

De forma geral, a América Latina apresenta hoje um ambiente econômico muito mais maduro e diversificado do que no passado. Décadas atrás, muitas economias eram altamente concentradas, dominadas por empresas estatais e por um número limitado de grandes instituições financeiras. No Brasil, por exemplo, companhias como Petrobras, Vale, Eletrobras já representaram uma parcela significativa do mercado acionário. Com a desregulamentação, as privatizações e a abertura econômica, o empreendedorismo se fortaleceu de forma consistente.

Atualmente, praticamente todos os setores da economia brasileira contam com uma combinação de empresas listadas, grandes companhias privadas e negócios em rápido crescimento. Essa profundidade e diversidade criam um ambiente bastante favorável para a atividade no mercado de capitais, de dívida e M&A, mesmo em um contexto de volatilidade política e regulatória.

Em conclusão, apesar dos desafios estruturais ainda presentes, a América Latina, e o Brasil em especial, dado o “tamanho de seu mercado e demanda” oferece oportunidades relevantes no longo prazo. Crescimento, consolidação e empreendedorismo seguem como vetores centrais, apoiados tanto por capital local quanto internacional. Para quem pretende investir na região, a recomendação mais importante é clara: contar com conhecimento local, capazes de compreender as particularidades do mercado. Esse conhecimento é decisivo para navegar os riscos e capturar valor.