Negócios & Transações

A nova geografia do capital: o avanço do investimento fora do eixo Rio–São Paulo

Dados recentes indicam um movimento gradual de desconcentração das finanças, impulsionado pelo amadurecimento de empresas e setores em regiões como o Centro- Oeste e o Nordeste.

Por muito tempo, o mercado financeiro brasileiro girou em torno de um eixo bem definido: Rio de Janeiro e São Paulo. As duas capitais formaram o epicentro das decisões de investimento, das emissões no mercado de capitais e das principais transações de fusões e aquisições do país. Essa concentração ainda existe, mas o mapa do capital brasileiro começa a se diversificar.

Nos últimos anos, dados de consultorias e instituições financeiras indicam um crescimento proporcional mais acelerado fora do Sudeste, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Nordeste, que reúnem características econômicas favoráveis, amadurecimento empresarial e novos polos de inovação. A movimentação é gradual, mas já o bastante para redefinir a dinâmica dos negócios no país.

Um movimento de desconcentração

 Relatórios da PwC mostram que, em 2024, o Sudeste respondeu por 69% das operações de M&A, enquanto o Sul concentrou cerca de 20%. O Centro-Oeste representou 3 a 4% das transações, com destaque para Goiás, que registrou 20 operações, crescimento de 25% em relação a 2023. Já o Nordeste manteve participação relevante, com cerca de 70 operações no mesmo período, reforçando a diversificação setorial e o aumento do apetite por consolidações fora dos grandes centros.

Esses dados refletem o amadurecimento de empresas regionais que passaram a buscar capital para expansão, sucessão ou integração de cadeias produtivas. A combinação de economias dinâmicas e de novos fluxos de investimento vem modificando o panorama tradicional, antes restrito à Faria Lima.

Investimentos e crédito produtivo em expansão

Segundo a ANBIMA, em levantamento publicado em junho de 2025, o Centro- Oeste soma R$ 420 bilhões em investimentos, enquanto o Nordeste alcança R$ 737 bilhões. Embora o Sudeste ainda concentre o maior volume — R$ 5,28 trilhões — o ritmo de expansão no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024 foi menor quando comparado às demais regiões, com um crescimento de 2,9%. Os investimentos na região Norte cresceram 8,5%, no Nordeste 7,9% e no Centro-Oeste 6%, superando o desempenho do Sul, que avançou 3,5% no mesmo intervalo.

O crédito regional acompanha esse movimento. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), os fundos constitucionais FNE, FCO e FNO devem destinar R$ 7,7 bilhões à indústria até o final de 2025, um aumento real de 19% sobre o ano anterior. O FCO, voltado ao Centro-Oeste, prevê R$ 1,5 bilhão para a indústria, alta de 4,7% frente a 2024. O fortalecimento das cooperativas de crédito, que ampliaram sua participação no mercado de 6,3% em 2022 para 7,2% em 2024, também contribui para diversificar as fontes de financiamento fora dos grandes bancos.

Inovação e tecnologia ganham força regional

 O ambiente de inovação reflete a mesma tendência. Segundo dados do Sebrae e da Revista Pesquisa Fapesp, o Centro-Oeste concentra 5,1% das startups brasileiras, um crescimento de 189% em relação ao último levantamento. Grande parte delas atua em agtechs, que cresceram de 338 em 2019 para 1.953 em 2024, com polos relevantes em Goiânia e Brasília. A região também abriga startups voltadas a saúde, educação e tecnologia aplicada ao agronegócio, segmentos que conectam a produção local a soluções digitais e atraem capital de risco.

No Nordeste, a criação de fundos regionais como o FIP Nordeste Capital Semente, de R$ 150 milhões, indica o fortalecimento de um ecossistema de inovação descentralizado. Ainda que o volume investido seja menor do que o observado no Sudeste, há um avanço constante na diversificação geográfica dos investimentos em tecnologia e venture capital.

Um novo mapa da intermediação financeira

 O avanço regional também se reflete na estrutura de intermediação. Dados da ANCORD e da Suno Research mostram que 62% dos assessores financeiros ainda estão no Sudeste, mas o Centro-Oeste já representa 5,5% do total — uma proporção que vem crescendo com a consolidação dos escritórios independentes e de plataformas financeiras regionais. Essa presença mais ampla de profissionais e instituições tem contribuído para aproximar empresas e investidores e ampliar o acesso a instrumentos de capitalização fora do eixo Rio–SP.

Oportunidades e perspectivas

 O amadurecimento empresarial de outras regiões do país e o aumento da renda média em estados como Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul criam uma base sólida para o crescimento do crédito, do consumo e dos investimentos. Setores como agronegócio, alimentos e bebidas, saúde, construção civil e tecnologia aplicada despontam como vetores de atração de capital e consolidação de negócios.

Embora a descentralização ainda seja limitada em volume, os indicadores recentes confirmam que o Brasil começa a formar novos polos financeiros e de decisão. Esse movimento não substitui o eixo tradicional, mas o complementa, tornando o ecossistema nacional mais equilibrado e com empresas regionais cada vez mais preparadas para acessar o mercado de capitais e participar de operações de M&A.

Um processo em evolução

 A desconcentração financeira brasileira ainda está em construção, mas já é perceptível e sustentada por dados. Ela nasce da combinação de fatores estruturais, como crescimento econômico, digitalização, crédito regional e inovação, que aproximam investidores e empreendedores em novas geografias.

A ampliação das oportunidades em outras regiões redefine o mapa do investimento no país e desafia o mercado a reconhecer o potencial econômico de estados que, até pouco tempo atrás, estavam à margem das grandes decisões financeiras.

A descentralização financeira avança em ritmo gradual, impulsionada por crédito regional, consolidação empresarial e inovação. Ainda que o eixo Rio–SP siga dominante, a ampliação das oportunidades em outras regiões redefine o mapa do investimento nacional e convida o mercado a olhar além das fronteiras tradicionais.

Fontes:

PwC Brasil, Panorama de Fusões e Aquisições 2024 ANBIMA, Relatório de Investimentos Regionais – Junho/2025

Confederação Nacional da Indústria (CNI), Relatório sobre Fundos Constitucionais 2025 Sebrae Nacional, Mapa de Startups 2024

Revista Pesquisa Fapesp, Agtechs impulsionam inovação fora do eixo Rio–SP Startupi, FIP Nordeste Capital Semente – 2025

ANCORD / Suno Research, Distribuição de assessores de investimento – 2024