Desde a consolidação dos programas modernos de compliance, especialmente a partir dos anos 1970, com o fortalecimento das normas anticorrupção internacionais e, posteriormente, com a expansão de marcos como a FCPA e a UK Bribery Act, o compliance corporativo esteve predominantemente associado à prevenção da corrupção, das fraudes e ao cumprimento de leis, políticas e procedimentos. Essa agenda continua essencial. Entretanto, especialmente na última década — e de forma mais acelerada desde 2020 — o ambiente empresarial passou a incorporar novos fatores de risco. A crescente atuação do crime organizado na economia lícita, a rápida disseminação da inteligência artificial generativa a partir de 2022 e a maior atenção institucional aos riscos comportamentais ampliaram a complexidade das decisões corporativas e exigem uma evolução dos programas de integridade.
Segundo o OECD Anti-Corruption and Integrity Outlook 2026, o crime organizado pode representar entre 2% e 5% do PIB mundial, alcançando até US$ 2 trilhões por ano. Além disso, 71% dos grupos reportados à Europol em 2024 estavam envolvidos em corrupção. Esse cenário exige que o third-party due diligence vá além de verificações documentais, incorporando inteligência de risco e monitoramento contínuo.
A inteligência artificial adiciona novos desafios. O papel do compliance não é frear a inovação, mas garantir seu uso responsável, transparente e com responsabilidades claramente definidas.
No campo comportamental, dados da Protiviti Brasil mostram que 49% das organizações não possuem política formal para apuração de denúncias de assédio e apenas 44% treinam todos os colaboradores, reforçando a importância de integrar cultura, liderança, investigação e prevenção. É preciso avaliar se funcionam, antecipam riscos e influenciam decisões.
A transformação também alcança o Chief Compliance Officer (CCO). A crescente responsabilidade da função exige mecanismos que fortaleçam sua independência, autonomia e acesso à governança. Estatutos de Compliance e padrões profissionais mínimos podem representar avanços relevantes.
A maturidade de um programa de integridade não está apenas em sua existência, mas em sua capacidade de proteger a organização quando o risco realmente importa.
Links: Organised crime and corruption: Anti-Corruption and Integrity Outlook 2026 | OECD


